Juventude Angolana e Empregabilidade: Falta de Vontade ou Falta de Oportunidades?

Juventude Angolana e Empregabilidade: Falta de Vontade ou Falta de Oportunidades?


É verdade que o jovem angolano não gosta de trabalhar?

Para o especialista Kiaco Sanda, esta é uma narrativa simplista que ignora os verdadeiros desafios estruturais da empregabilidade em Angola.

Segundo o estudante de Recursos Humanos e orientador profissional, a juventude não carece de vontade, mas sim de oportunidades formais, orientação adequada, condições justas e políticas eficazes de inclusão.

A Falta de Informação como Barreira Invisível

Kiaco Sanda defende que uma das principais causas da exclusão de muitos jovens do mercado de trabalho é a falta de informação adequada, acessível e assertiva. Para ele, milhares de candidatos ficam fora do sistema não por inexistência de vagas, mas por não saberem onde procurar, como preparar um currículo, como enviar uma candidatura ou como se comportar numa entrevista.

Na sua análise, a ausência de plataformas digitais unificadas e de campanhas permanentes de orientação profissional constitui uma das maiores fragilidades do sistema.

Desalinhamento entre Formação e Mercado

O especialista sublinha ainda que existe uma diferença significativa entre o que é ensinado e aquilo que o mercado realmente exige. Muitos jovens formam-se em áreas com baixa empregabilidade, o que gera frustração e sensação de incapacidade.

Paralelamente, as empresas exigem entre cinco a dez anos de experiência, enquanto as oportunidades de estágio são limitadas. Para Kiaco Sandra, esta contradição bloqueia a entrada de novos talentos no mercado formal.

O Risco de Depender Apenas do Concurso Público

De acordo com o orientador profissional, muitos jovens concentram as suas expectativas nos concursos públicos devido às elevadas exigências do setor privado. Contudo, ele alerta que esses concursos são frequentemente marcados por atrasos, falta de comunicação clara, número reduzido de vagas e longos períodos de espera.

Na sua perspetiva, essa incerteza gera impacto psicológico significativo, como ansiedade, stress e desmotivação. Além disso, a probabilidade de não seleção é alta, o que pode resultar em perda de tempo, energia e oportunidades alternativas.

Trabalho Informal e Vulnerabilidade

Kiaco Sanda chama atenção para o elevado número de jovens que trabalham sem vínculo laboral formal. A ausência de contrato implica falta de segurança social, proteção contra despedimento injusto, férias remuneradas e licença médica.



Ele observa que, na informalidade, os salários são frequentemente inferiores ao mínimo nacional, pagos com atraso e sem benefícios adicionais. Também destaca que muitos jovens executam tarefas fora das funções acordadas, trabalham horas excessivas e não possuem seguro laboral.

Propostas Apresentadas pelo Especialista

Como soluções, Kiaco Sanda propõe:

Criação de plataformas digitais unificadas para centralizar vagas formais e informais, com acesso via telemóvel.

Campanhas de orientação profissional nas escolas, igrejas e centros comunitários.

Parcerias entre governo e empresas privadas para oferta de formações gratuitas ou bolsas.

Cursos online gratuitos sobre preparação de currículo, entrevistas de emprego e elaboração de carta de apresentação.

Integração de sistemas de informação entre ministérios, centros de formação e empresas públicas e privadas.

Incentivos fiscais para empresas que disponibilizem estágios.

Reestruturação dos centros de formação do Ministério da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social, com maior enfoque na componente prática.

Divulgação contínua, nos meios de comunicação social, de programas de microcrédito, feiras de empreendedorismo e calendários formativos.

Uma Questão Estrutural, Não Geracional

Para Kiaco Sanda, a questão central não é a falta de interesse da juventude pelo trabalho, mas sim a necessidade urgente de reorganizar o ecossistema de empregabilidade no país.

Na sua visão, o jovem deve diversificar estratégias, apostando simultaneamente na formação profissional, estágios, emprego privado, empreendedorismo e cursos técnicos, em vez de depender exclusivamente do concurso público.

A reflexão deixada pelo especialista é clara: a juventude angolana não precisa apenas de motivação — precisa de estrutura, informação acessível e oportunidades concretas.

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